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Meio Ambiente
Pressão do setor agrícola acelera desmatamento na Guatemala

Le Monde

Stéphane Foucart
Em La Joyanca (Guatemala)


Por todos os lados, vacas a perder de vista. Em torno da estrada que leva ao sítio arqueológico de La Joyanca, no noroeste da Guatemala, em menos de dez anos a floresta primária foi substituída por intermináveis pradarias de pecuária extensiva. Somente alguns fragmentos de selva, ainda presentes em alguns pontos dos pastos, indicam que a conversão não se deu completamente. Aqui na região de Petén, nas margens e até no coração do parque nacional de Laguna del Tigre, um fenômeno vem sofrendo uma nítida aceleração na Guatemala: uma frente pioneira agrícola avança inexorável sobre a floresta, corroendo-a.

O avanço dessa frente às vezes depende de pouca coisa. “No final dos anos 1980, quando a área ainda não era um parque nacional, a Basic Petroleum obteve uma concessão de exploração na região da Laguna del Tigre, no coração da floresta”, conta Marco Cerezo, diretor da FundaEco, uma das principais ONGs guatemaltecas de defesa do meio ambiente e de ajuda ao desenvolvimento. “Mais tarde, as petroleiras pediram e conseguiram a permissão de construir uma estrada que levasse até ao poço. Foi ao longo dessa estrada que a clareira foi feita. Hoje, cerca de 40% do parque nacional foi desmatado.”

Em todo o departamento de Petén, que ocupa a metade norte do país, há a ocorrência de situações parecidas. De acordo com as últimas estimativas da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), publicadas no final de 2010, a Guatemala é o país onde o desmatamento mais se acelerou nos últimos cinco anos.

Em 2010, a floresta primária representava 1,62 milhão de hectares, contra 2,35 milhões vinte anos antes. O país, que abriga a maior parte do segundo maior maciço de floresta pluvial do continente americano depois da Amazônia, perdeu em média 27 mil hectares por ano entre 2000 e 2005, ou seja, uma perda de 1,32% ao ano. Essa redução de cobertura florestal passou para 68 mil hectares por ano entre 2005 e 2010 – uma redução anual de 3,72%: em dez anos, o ritmo da erosão quase triplicou.

Dois eventos distintos estão ocorrendo. “As imagens de satélite permitem distinguir as atividades de pecuária, que são mais um fenômeno dos chamados povos ladinos, de cultura hispânica, e uma agricultura tradicional itinerante e de subsistência, baseada no milho, na abóbora e no feijão, que é mais um fenômeno das populações indígenas Q’eqchi (um grupo maia)”, diz o geógrafo Gilles Selleron, pesquisador da Unidade de Geografia do Meio Ambiente (CNRS, Universidade Toulouse-2), especialista em dinâmicas dos espaços florestais.

No entanto, a grande pressão demográfica não explica a aceleração recente desse avanço para o norte florestal do país. Por que os pequenos camponeses têm avançado cada vez mais para dentro da floresta? “As últimas grandes negociações comerciais permitiram que a Guatemala aumentasse suas cotas de exportação de açúcar, o que automaticamente ampliou as áreas das grandes plantações de cana-de-açúcar”, analisa Cerezo. “Essa competição pela terra, em um país que não teve reforma agrária, ocorre à custa das comunidades locais, que migram em busca de novas terras”.

Isso não é tudo. “O que mais contribuiu, em cinco anos, para a aceleração do recuo da floresta foi a enorme expansão da palmeira de dendê e o fenômeno das narcofincas [propriedades de traficantes]. “No local, os dirigentes de associações de agrossilvicultura também mencionam esse fenômeno, novo e em plena expansão: o da apropriação de terras pelos traficantes de drogas, por venda forçada ou devastação selvagem de áreas protegidas.” Os grandes senhores das drogas tentam obter status social associado à posse de terras e de gado”, diz Cerezo. “É uma nova forma de feudalismo que vem se instaurando, com milhares de hectares sendo convertidos em pecuária extensiva.”

Cana-de-açúcar, palmeira de dendê, “narcofincas” e também minas a céu aberto fazem parte da concentração de terras e inevitavelmente levam as comunidades a se deslocarem para a floresta. Esta se torna, em um dos países mais pobres e mais corruptos da América Latina, “um amortecedor de tensões que atravessam a sociedade”, segundo Cerezo.

Para Selleron, a retração da floresta guatemalteca também deve ser considerada sob uma perspectiva histórica longa que mostra que essa floresta viveu fluxos e refluxos. “É preciso ter em mente que há cerca de 2 mil anos, a expansão da civilização maia só pôde se dar pela devastação da floresta, que na época era extremamente reduzida,” diz o geógrafo. “Ao longo do chamado período maia clássico [entre 200 e 900 d.C.], a densidade de população no atual Petén era de cerca de 200 habitantes por quilômetro quadrado, contra menos de dez hoje! Era necessário cultivar a terra para alimentar essa população”.

Um novo parâmetro, a mudança climática, agora é levado em conta. “Nos anos 1990, as ONGs de defesa ambiental viam a floresta como um reservatório de biodiversidade a ser protegido”, diz Marco Cerezo. “Hoje a floresta é mais vista como um meio de atenuar os efeitos da mudança climática”. Há duas décadas os episódios de fortes chuvas vêm aumentando, e o desaparecimento da cobertura florestal facilita, nesse país montanhoso, os deslizamentos de lama que muitas vezes são fatais.

As ONGs não baixam a guarda. Os mecanismos de compensação de carbono para financiar a preservação da floresta ainda não foram utilizados no país. “Estamos trabalhando nesse assunto com o BNP Paribas”, diz Cerezo.

Tradução: Lana Lim

 
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