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Bolívia
Intifada à boliviana

Em dezembro de 2000 a Organização para Libertação da Palestina (OLP) se viu surpreendida por uma convulsão nos territórios ocupados que durante várias semanas a obrigou a se perguntar quem dirigia quem e forçou o poder oficial a contar com as forças do "interior", que haviam desencadeado a Intifada.

A recente abolição do decreto que quase duplicava o preço dos combustíveis na Bolívia, diante do maciço protesto popular, pode surtir efeitos parecidos: quem governa quem? O Palácio Queimado em La Paz ou o sindicato de cocaleiros de Chapare, "alma mater" de Evo Morales?

Em dezembro de 2005 o presidente indígena foi eleito com quase 54% dos votos; em dezembro de 2007 era aprovada a nova Constituição que abria caminho para a chamada "refundação da Bolívia"; e em dezembro de 2009 vencia com 63% dos votos e embolsava dois terços de ambas as câmaras.

Mas por acaso Evo Morales tinha a propriedade absoluta desses votos, ou somente os havia recebido em empréstimo? Em 2010 o presidente acelerou vertiginosamente sua revolução refundadora, como se alguém estivesse lhe pedindo contas.

Em fevereiro passado as câmaras aprovavam a lei transitória de designação de juízes, que deverá ser arredondada este ano para que todos sejam de eleição popular; em 2010, 36 conhecidos opositores foram processados - 12 deles "in absentia" - e entre os perseguidos quatro presidentes e vice-presidentes, Carlos Mesa, Víctor Hugo Cárdenas, Jorge Quiroga e Eduardo Rodríguez Veltze - publicaram uma carta encomendando sua sorte à opinião pública internacional; em junho era aprovada a lei de justiça indígena, à espera de um texto que delimite competências com o ordenamento jurídico ocidental; em outubro se promulgava uma lei contra o racismo, que em seu artigo 16 prevê vultosas multas e até o fechamento de publicações que incorram nessa figura delituosa, mas não só porque incitem à discriminação, como também por informar sobre quem o faça; e em dezembro entrava em vigor uma lei de educação que fixava a escolarização até o nível colegial, ao mesmo tempo que consagrava 36 novos textos escolares, tantos quantas as etnias oficiais do país, com o objetivo de estabelecer uma neomitologia da Bolívia, mas não sem deixar alguns cadáveres pelo caminho, como o clássico local "Raça de Bronze" de Alcides Arguedas, que se não foi proibido está fortemente desaconselhado; e por último a matéria de religião se transformou em "religiões, espiritualidade, ética e valores", embora se respeite o ensino de religiões específicas.

Tudo isso equivale a proclamar o fracasso da independência crioula, a incapacidade das elites históricas da Bolívia, de raiz espanhola e europeia, de inventar um país para todos. Como disse o presidente venezuelano, Hugo Chávez, sobre si mesmo, Evo Morales é "a consequência".

Nessa sucessão de acelerações, o encarecimento dos combustíveis era um freio, um doloroso reconhecimento da ordem econômica mundial, com que se pretendia economizar este ano ao Estado cerca de 500 milhões de euros em subvenções, que agora será preciso manter. E o protesto que conduziu à abolição constitui um reclame não só material, mas também uma exigência de continuidade no movimento refundador.

O presidente se moveu entre duas potências clássicas: Robespierre e Jovellanos, embora sempre muito mais perto do primeiro. O revolucionário francês dizia que para que não escapasse nenhum culpado era preciso acabar com muitos inocentes - entre eles a liberdade de expressão, que está em risco pelo golpe fundamental de tantas leis; e o ilustrado espanhol que afirmava: "Jamais acreditarei que se deva dar a uma nação mais bem do que pode receber". O frustrado encarecimento da gasolina era uma medida à Jovellanos, como ponto e parágrafo de toda uma indigestão de reformas.

O Movimento Ao Socialismo (MAS) que apoia Evo Morales, mais que um partido é uma federação de grupos e interesses sociais, em cujo seio há pesos desiguais e os plantadores de coca se erguem nela como guardiães das essências da bolivianidade, aquela que quer se impor sobre a desestruturada versão crioula.

Evo Morales terá de escolher entre uma política que satisfaça a suas bases, mas desincentive o investimento das empresas estrangeiras - hoje nacionalizadas - sem as quais não é possível continuar extraindo as riquezas do subsolo, ou resignar-se a algum tipo de realismo econômico. A marcha para o socialismo ou comunitarismo indígena do século 15 - precolombiano - está pedindo aos gritos um período de reflexão.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Fonte: El Pais, 05/01/2011

 
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