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Colômbia
Calor devasta plantações de café na Colômbia

Como a maioria dos pequenos proprietários de terras da região montanhosa e fértil de Cauca, na Colômbia, Luis Garzon, 80, e sua família prosperaram durante décadas fornecendo café Arábica, cultivado na sombra e sem prejudicar a floresta, para marcas estrangeiras como Nespresso e Green Mountain. Uma placa no centro de uma cidade próxima proclama: “o café de Cauca é o número 1!”

Mas nos últimos anos, a produção de café caiu aqui e em muitas outras regiões produtoras de café de qualidade da América Latina como resultado do aumento das temperaturas e de chuvas mais intensas e imprevisíveis, um fenômeno que muitos cientistas associam parcialmente ao aquecimento global.

Os pés de café exigem a mistura exata de temperatura, chuvas e períodos de seca para que os grãos amadureçam apropriadamente e mantenham o sabor. As pragas do café se proliferam no clima mais quente e úmido. A produção de grãos na fazenda de Garzon caiu 70% em relação a cinco anos atrás, deixando a família com pouco dinheiro para comprar roupas para as crianças e pensando “duas vezes” se mandam os filhos mais velhos para a faculdade, disse o filho de 44 anos de Garzon, Albeiro, entrevistado numa casa de reboco amarelo decorada com posteres de café e madonas.

A falta de café Arábica de alta qualidade também está sendo sentida pelos supermercados de Nova York e pelas cafeterias de Paris, à medida que os consumidores se surpreendem com o aumento dos preços. Fornecedores temem que a produção de café Arábica da Colômbia nunca se recupere – que o mundo pode, na verdade, chegar ao “pico do café”.

Em 2006, a Colômbia produziu mais de 12 milhões de sacas de 60 quilos de café e estabeleceu uma meta de 17 milhões para 2014. No ano passado a produção foi de 9 milhões de sacas.

Marcas como a Maxwell, Yuban e Folgers aumentaram os preços de muitas variedades no varejo em 25% ou mais desde meados do ano passado, por conta do fornecimento escasso e dos preços mais altos no atacado. Os lucros de franquias de café de qualidade como a Starbucks e Green Mountain caíram.

Os títulos futuros do café Arábica, o grão de alta qualidade que vem principalmente da América Latina, aumentaram mais de 85% desde junho, para US$ 2,95 por 450 gramas, em parte por conta das preocupações com o fornecimento, clima extremo e qualidade futura, disse George Kopp, analista do International Futures Group in Chicago.

Mas enquanto os estoques dos melhores grão de café diminuem, a demanda global está aumentando à medida que as classes médias em ascensão de economias emergentes como o Brasil, a Índia e a China desenvolvem o hábito de tomar café.

“A produção de café está ameaçada por causa do aquecimento global, e a perspectiva para o Arábica em particular não é boa”, disse Peter Baker, especialista em café para o CABI, um grupo de pesquisa na Inglaterra com foco na agricultura e meio ambiente, observando que as mudanças climáticas, incluindo chuvas pesadas e períodos de secas, prejudicaram as plantações em muitas partes da América do Sul e Central.

Importante cientista do café, ele agitou os fóruns de comércio alertando, ao estilo de Cassandra, sobre a possibilidade de um “pico do café”, o que significa que, da mesma forma que com os estoques de petróleo, o suprimento de café pode estar fadado a um declínio inexorável a menos que os produtores façam esforços mais coordenados para expandir a produção globalmente.

A Associação de Cafés Especiais dos Estados Unidos alertou este ano: “não é implausível começar a questionar a própria existência dos cafés especiais.”

Os cafés Arábica e Robusta respondem por praticamente todo o consumo. Com seu sabor mais delicado e menor teor de cafeína, o Arábica é mais popular e mais caro, embora geralmente mais exigente em relação ao clima. A produção de Robusta é dominante na Ásia e África.

A Colômbia é o segundo maior exportador de café Arábica depois do Brasil, onde a produção é concentrada em fazendas maiores e mais mecanizadas, e continua crescendo.

A Federação de Produtores de Café da Colômbia diz que os preços altos dos fertilizantes também diminuiu a produção. Mas ela concorda com um relatório de 2009 da Organização Internacional do Café que concluía: “a variabilidade climática é o principal fator responsável pelas mudanças na produção do café em todo o mundo”.

As temperaturas médias na Colômbia aumentaram quase 1 grau Celsius em 30 anos, e em algumas áreas montanhosas o aumento foi o dobro disso, diz o Cenicafe, centro de pesquisa nacional sobre o café. A chuva nessa região foi 25% acima da média nos últimos anos.

Com as novas temperaturas altas, os botões das plantas abortam ou seus frutos amadurecem rápido demais para terem boa qualidade.

O calor também traz pragas como a ferrugem do café, um fungo devastador que não conseguia sobreviver no clima mais frio que existia antes na região montanhosa. As chuvas fortes danificam as delicadas flores do Arábica, e as secas de duas semanas que faziam com que a planta florescesse e produzisse grãos acontecem com menos frequência, dizem os fazendeiros.

Os grãos de Arábica levam cerca de sete meses para maturar.

“Meio grau pode fazer uma grande diferença para o café – ele é adaptado a uma zona muito específica”, disse Nestor Riano, especialista em agroclimatologia na Cenicafe. “Se a temperatura aumenta mesmo que um pouco, o crescimento é afetado, e as pragas e as doenças aumentam.”

Embora os cientistas do clima concordem que o aumento na temperatura é um sinal claro do aquecimento global e as temperaturas altas dos oceanos estão em geral associadas a tempestades mais frequentes, eles não sabem se os padrões de clima peculiares da área estão diretamente relacionados ao aquecimento, disse Stephen E. Zebiak, diretor-geral do Instituto Internacional de Pesquisa para o Clima e a Sociedade na Universidade de Columbia.

“É difícil saber se esse clima severo representa uma flutuação natural ou é um sinal das mudanças climáticas, embora do ponto de vista de gerenciamento de riscos, há bons motivos para pensar em como lidar com esses eventos extremos”, disse Zebiak.

Na esperança de restaurar a produção de café, pesquisadores dos laboratórios do Cenicafe estão trabalhando numa missão que parece tão urgente para a Colômbia quanto a cura do câncer é para a pesquisa médica.

Agrônomos estão ensinando os fazendeiros a controlar as pragas que chegam com a mudança do clima. Climatologistas estão trabalhando para fornecer melhores previsões do clima local. Geneticistas estão criando plantas que são mais resistentes a doenças ou que podem aguentar chuvas torrenciais ou um ambiente mais quente.

A Federação de Produtores de Café aconselhou os fazendeiros a mudarem para uma variedade nova e mais resistente de Arábica que foi desenvolvida pelo Cenicafe durante as duas últimas décadas.

Embora a federação diga que ele tem o mesmo sabor das variedades tradicionais, os fazendeiros resistem porque não podem abrir mão do rendimento de uma safra anual enquanto esperam que as novas plantas amadureçam. Eles também temem que a mudança possa afetar o sabor.

O sabor, a qualidade e o fornecimento são temas delicados para um setor cujos aficionados são notoriamente exigentes. As companhias de café estão “trabalhando com os agricultores de toda a região para lidar com o impacto da mudança dos padrões do clima como resultado direto das mudanças climáticas”, disse Lisa Magnino, porta-voz da Starbucks.

A Starbucks já comprou café suficiente para durar até 2012, ela acrescentou.

Luis Fernando Samper, porta-voz da Federação de Produtores de Café da Colômbia, disse que os grãos que chegam às mesas de café da manhã nos Estados Unidos produzirão café com a mesma qualidade de sempre. O problema é para os agricultores colombianos, que estão produzindo bem menos grãos e “grãos mais imperfeitos” que não atendem aos padrões de exportação.

Durante décadas, disse Luis Garzon, que começou a plantar café aos 7 anos, o clima era seco de 1º de junho a 8 de setembro em Timbio. Há alguns anos, o clima diferente chegou.

“Pode começar a chover às 6 da manhã e continuar por 24 horas”, disse ele.

Primeiro, a produção caiu. Depois no ano passado, o fungo da ferrugem do café chegou à fazenda de Garzon, matando plantações inteiras.

“Nós aprendemos a lição”, disse ele, passando a mão nas folhas amareladas de algumas plantas doentes.

Agora, a família está plantando uma nova variedade mais resistente do Arábica, chamada castillo.

A federação do café espera que a inovação permita que os produtores mantenham o café Arábica caro nas mesas norte-americanas.

Enquanto isso, ela está criando um programa de certificação de “origem do produto” para os cafés colombianos, semelhante à que protege o queijo parmesão italiano. Dessa forma os importadores não ficarão tentados a substituir o café colombiano por grãos do Brasil ou da Indonésia.

Tradução: Eloise De Vylder

 

Fonte:   The New York Times. Por Elisabeth Rosenthal, disponível no UOL, 14/03/2011.

 
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