• Argentina
  • Bolívia
  • Brasil
  • Chile
  • Colômbia
  • Costa Rica
  • Cuba
  • Equador
  • El Salvador
  • Guatemala
  • Honduras
  • México
  • Nicarágua
  • Panamá
  • Paraguai
  • Peru
  • República Dominicana
  • Uruguai
  • Venezuela
Cultura
A transformação da estética do novo cinema argentino

O publicitário argentino Gustavo Taretto tinha poucas ambições quando começou a rodar seu primeiro longa-metragem, "Medianeras". "Só pensava em gravar e aproveitar o momento. Nunca imaginei como seria a estreia", conta. O reconhecimento, para a surpresa de Taretto, veio rápido. O filme ganhou o prêmio do público do Festival de Berlim e, desde então, foi assistido em 30 países. Ele é apontado, junto a outros novos cineastas que despontaram em 2011, como um sopro de renovação no chamado novo cinema argentino - que já não tão novo assim (críticos identificam uma espécie de entressafra na produção argentina entre 2004 e 2010).

"Houve uma geração de cineastas que fez sucesso e, a partir daí, os outros começaram a repetir a fórmula, a fazer sempre o mesmo", diz a pesquisadora de cinema argentino Natália Barrenha, mestre e doutoranda em multimeios pela Universidade de Campinas (Unicamp). A pesquisadora denomina de estética da "fiaca" ou da preguiça, o que ocorreu com a produção neste período. "Mas em 2011 o cinema argentino saiu do vazio de qualidade."

"Tinha que haver inovação. Os diretores do novo cinema argentino passaram dos 40 anos e muitos já são consagrados. Agora, há gente na faixa dos 30 anos começando a despontar", afirma o coordenador de cinema e vídeo do Centro Cultural Rojas, da Universidade de Buenos Aires, Raúl Manrupe. Ele é autor do "Dicionário de Filmes Argentinos", que catalogou, em três volumes, mais de 1.200 produções. O país produz cerca de cem filmes por ano. O que chega ao Brasil - onde a produção é de cerca de 70 filmes por ano - é uma pequena parcela disso.

Para Sebastián Borensztein, diretor de "Um Conto Chinês", maior sucesso de bilheteria argentino em 2011, o bom momento passa por uma mudança de paradigma. "Os cineastas perceberam que para gerar uma indústria importante é necessário fazer cinema de gênero e não apenas cinema marginal ou de autor", diz. A aposta dele foi uma comédia dramática com um grande astro para atrair espectadores, o ator Ricardo Darín. "O Darín tem público próprio, é capaz de levar 200, 300 mil pessoas ao cinema. Se o filme é bom, o número se multiplica", diz Borensztein.

"Um Conto Chinês" teve público de mais de 900 mil, só na Argentina no ano passado, segundo ranking da revista "Haciendo Cine". O ator, que foi protagonista também de "O Segredo de Seus Olhos", de Juan José Campanella, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2010, está nas telas brasileiras em "A Bailarina e o Ladrão", do espanhol Fernando Trueba, que ainda tem outro argentino no elenco - o jovem ator Abel Ayala. E deve abrir caminho para outra das promessas de 2012, o filme "Elefante Blanco", de Pablo Trapero.

A novíssima geração ainda está fora das telas comerciais brasileiras. Dentre os filmes de diretores estreantes, os críticos apostam em "Los Salvajes", de Alejandro Fadel, que deve repetir, neste ano, o êxito que teve em 2011 "El Estudiante", primeiro longa de Santiago Mitre. O filme de Mitre conquistou prêmios, como o especial do júri no Festival Internacional de Cinema Alternativo de Buenos Aires (Bafici), do ano passado, que exibiu 438 filmes, sendo 113 argentinos, para um público de cerca de 300 mil pessoas. A 14ª edição do festival, um dos grandes eventos cinematográficos da América Latina, acontece até o dia 22 de abril.

Divulgação / Divulgação
"Medianeras", primeiro longa de Gustavo Taretto; filme ganhou o prêmio do público do Festival de Berlim

 

O novo momento do cinema argentino não entusiasma a todos. O diretor-geral do Festival de Cannes, Thierry Frémaux, durante visita ao México, no início de março, afirmou que se esperava mais do cinema argentino e que os cineastas cometeram "suicídio". As declarações foram recebidas com polêmica. O crítico de cinema Javier Porta Fouz, que escreve para o jornal "La Nacion", vê com descrédito a declaração. "Creio que ele pode ter sido mal interpretado", afirma. O crítico Roger Koza, do jornal "La Voz del Interior", foi mais duro: "A fórmula de Frémaux, que combina filme de 'qualité' para senhoras ricas que visitam Cannes e um cinema mais arriscado para críticos e programadores, é mais que questionável. Devia pensar nisto antes de questionar os cineastas argentinos".

A consolidação do novo cinema argentino tomou forma no final dos anos 1990. O passo inicial foi a reestruturação do Instituto Nacional de Cinema e Artes Audiovisuais (Incaa) e a aprovação da Lei do Cinema. A legislação argentina prevê, por exemplo, uma cota de tela para garantir a exibição dos filmes nacionais.

O Incaa subsidia boa parte da produção nacional. No mês de janeiro deste ano, aportou mais de 8,2 milhões de pesos argentinos, o equivalente a cerca de US$ 1,8 milhão. Só em dezembro de 2011, foram mais de 24,1 milhões de pesos, ou cerca de US$ 5,5 milhões. Apenas grandes produtoras comerciais, como a Patagonik, que produziu "Meu Primeiro Casamento", sobrevivem sem dinheiro do Estado.

Os diretores consideram a ajuda pública fundamental. "O que se consegue de fora ou de investimento privado é menor", afirma Taretto. "Medianeras" custou cerca de 3,5 milhões de pesos, que representam em torno de US$ 800 mil, com recursos do Incaa e em parceria com produtoras estrangeiras, mas o diretor disse não saber informar os percentuais de investimento. "Um Conto Chinês", cujo orçamento foi de US$ 2 milhões, contou com cerca de 2 milhões de pesos, ou US$ 450 mil do Incaa, segundo Borensztein.

O grande desafio dos cineastas é conseguir a exibição massiva. "A bilheteria de 'Um Conto Chinês' é uma exceção, 90% dos filmes nacionais não atingem mais do que 20 mil espectadores", afirma o diretor do filme. Mesmo assim, Natália Barrenha acredita que muitos cineastas conseguiram encontrar o caminho do meio e a isso se deve o reconhecimento internacional. "Aqui se consegue fazer filmes bons, que dialogam com o público. No Brasil, ou se faz filme 'de arte', ou muito comercial. 'Tropa de Elite' é uma exceção", diz.

A história do cinema argentino é cheia de paralelismos com a do nosso. Desde uma efervescência comercial entre as décadas de 1930 e 1940, à decadência nos anos 1950 e um cinema político nos anos 1960. O fim da ditadura no início dos anos 1980 deu algum fôlego à criatividade cinematográfica argentina. O filme "A História Oficial", de Luiz Puenzo, trata da apropriação de filhos de presos políticos e rendeu o primeiro Oscar de melhor filme estrangeiro ao país, em 1986.

Os primórdios da cinematografia argentina podem ser conhecidos no Museu do Cinema Pablo Ducrós, no bairro La Boca, em Buenos Aires. O acervo reúne mais de 60 mil latas de filmes, cerca de 3.000 cartazes, 1.600 roteiros originais, além de croquis, figurinos e objetos de personalidades do cinema, mas apenas uma pequena parte está em exposição. O destaque é uma das dez câmeras dos irmãos Lumière existentes no mundo. Três ícones argentinos - Evita Perón, Carlos Gardel e Jorge Luis Borges - têm uma íntima relação com as telas. Evita surgiu como atriz de cinema e nesta condição conheceu o futuro marido, Juan Domingo Perón. Gardel imortalizou parte de seus tangos mais famosos no advento do cinema falado. Borges era crítico, com atuação na imprensa.

Valor, 16/04/2012.

 
últimas notícias da categoria:
 
Mais notícias desta categoria:
 
Veja todas as notícias:
 
Envie esta notícia

 Voltar
  • banner_america_latina

© Copyright 2007 / 2007 - Todos os Direitos Reservados