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Peru
A versão peruana da corrida do ouro

Topo da Bacia do Rio Titicaca está virando terra sem lei, onde empresas e mineradores artesanais disputam o poder

Heather William, Los Angeles Times - O Estado de S.Paulo

Cinco mil e cem metros acima do nível do mar, no topo da Bacia do Lago Titicaca, no Peru, as encostas cinza escuro faíscam com minúsculos flocos de ouro. Todos os dias, 40 mil pessoas com picaretas e furadeiras hidráulicas rudimentares trabalham nas minas subterrâneas de La Rinconada. Outros milhares labutam em equipes peneirando areia numa mina a céu aberto, nas cabeceiras do principal tributário do lago.

Uma corrida do ouro está em curso nessa parte dos Andes. Novas fortunas são feitas por uns poucos, enquanto muitos outros trabalham em meio a uma miséria em massa. Caminhonetes 4X4 de US$ 500 mil transitam por estradas de terra entre favelas de barracos de metal corrugado. Há pouco governo por aqui: famílias derretem neve de seus telhados para obter água, cozinham com bujões de gás e iluminam suas casas com lampiões de querosene. Cães vasculham os montes de lixo em caminhos lamacentos que levam dos casebres à mina. O cemitério é uma miscelânea de cores, com flores de plástico cobrindo os túmulos frescos.

Com o ouro a US$ 1.600 a onça, muitos na região, uma das mais pobres do Peru, trabalham nas minas por um grama ou dois do mineral por semana. É um trabalho extenuante. Minúsculos pedaços de ouro no minério de baixo teor são escavados da rocha dura com marretas ou máquinas toscas de trituração. Depois, são refinados com mercúrio tóxico numa casa sem ventilação ou em uma loja de esquina.

Numa mina adjacente a céu aberto, equipes de homens dragam o Rio Ramis até uma profundidade de 300 metros ou mais, deixando pilhas de terra, resíduos rochosos e sujeira para serem levados pelo rio. A mina é imensa. Quanto estive lá, em junho, com alguns de meus alunos, eu a medi com um GPS em cerca de 12,8 km de comprimento por mais de 1,6 km de largura. Boa parte da mineração na área é desregulada e não contabilizada. Duas grandes corporações, incluindo uma estatal, têm operações na área, mas a verdadeira extração é feita por mineiros "artesanais" de cooperativas.

É difícil decifrar quem exatamente controla as cooperativas. Mas elas são operadas geralmente por pessoas com dinheiro suficiente para comprar equipamentos e influência para conseguir contratos. Os locais dizem que capatazes controlam diferentes áreas da escavação, contratando trabalhadores que labutam pela chance de levar para casa o que encontrar em um dia. É um lugar caótico, corrupto e brutal.

Contaminação.

O mineiro que nos acompanhou neste ano insistiu que esse método de mineração a céu aberto era "totalmente natural, sem produtos químicos". Mas as amostras de solo que apanhei e mandei analisar contam uma história diferente. Elas indicaram que o lixo continha níveis extremamente altos de arsênico, quantidades elevadas de chumbo e níveis detectáveis de mercúrio.

Pouco depois de a mina a céu aberto iniciar suas operações, há cerca de sete anos, ovelhas e gado começaram a morrer. Rio abaixo, agricultores disseram que desde que a mineração começou nada foi como antes. Uma mulher idosa que vivia sozinha em sua casa na montanha começou a chorar quando nos contou como seu rebanho de oito vacas leiteiras morreu após o rio tornar-se opaco com o lixo da mina. Outra mulher da mesma comunidade descreveu a morte do rio: primeiro foram os peixes; depois, os pássaros e as rãs. Hoje, disse ela, nem mesmo as menores criaturas, borboletas e insetos aquáticos, vivem ao longo do rio.

Tensão política.

Muito se falou das credenciais de esquerda do novo presidente do Peru, Ollanta Humala. Entendidos especularam se ele governará mais como o temperamental Hugo Chávez, da Venezuela, ou mais moderadamente, como o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva.

Mas o maior desafio de Humala durante seu mandato de cinco anos pode ser mais de caráter prático do que ideológico. Nesse país rico em minerais - atualmente o sexto maior exportador de ouro - uma questão crucial é se o presidente será capaz de controlar o caos em lugares como La Rinconada, equilibrando as demandas da mineração com preocupações ambientais e as necessidades dos pobres.

Protestos de vários grupos sobre poluição e direitos de mineração abalaram a região. Em maio e junho, dezenas de milhares de descendentes de indígenas ocuparam postos de controle da fronteira meridional do Peru e suas principais estradas por semanas. Uma ocupação de cinco dias da capital da região, Puno, culminou em incêndios criminosos. Outro protesto no principal aeroporto da região terminou num tiroteio que deixou seis mortos e muitos feridos.

As reivindicações dos vários grupos manifestantes parecem diferentes. Alguns estão pedindo uma limpeza do Rio Ramis. Outros querem que o governo declare ilegal a mineração numa área municipal de recarga de água. Outros ainda pediram a saída de corporações multinacionais da região ou uma participação maior nas receitas dos impostos de mineração. Por último - e mais ameaçador - há grupos entre os manifestantes que querem livrar a região das minas formais e abrir caminho para a mineração desregulada e sem controles.

Sem proteções legais adequadas, os peruanos cujas terras e a água são destruídas pela poluição da mina ficam sem outra alternativa - senão trabalhar eles próprios nas minas ou reagir com uma ação coletiva militante.

O que o governo Humala precisa fazer nos próximos cinco anos é deixar claro que nenhuma operação de mineração, grande ou pequena, está acima da lei. Ele precisa romper com a prática de lidar com conflitos mineiros numa base ad hoc e trabalhar com o Legislativo peruano para escrever estatutos regulatórios e ambientais que tornem os cidadãos parte do processo de cumprimento da lei.

Ao tornar pública informações sobre mineração e qualidade da água e proporcionar mais poder de interdição contra poluidores, Humala pode permitir que peruanos parem as minas perigosas antes que elas coloquem em risco vidas e ecossistemas. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É PROFESSORA DO POMONA COLLEGE

 
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