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Peru
As razões peruanas

Não faz muito tempo, o presidente do Peru, Alan García, queixava-se de seus compatriotas em uma rádio. Por que, no país que mais cresce na América Latina, lhe conferem melancólicos 26% de aprovação, com rejeição brutal longe da costa? "Nosso povo é assim. Somos como somos, tristões, desconfiados." E depois: "Não governo para os brasileiros, que têm outro tipo de raça, de alegrias e sol".
Ocorre que as razões dos peruanos parecem ser menos metafísicas e é por isso que nenhum dos candidatos que disputam a Presidência do país no próximo domingo quer o endosso explícito de García.
Há motivos políticos, econômicos e sócio-ambientais para o mal-estar peruano. E grande parte deles vem embalada num complexo quadro de disparidades regionais, um grande desafio para o próximo mandatário peruano.
Cito uma espécie de síntese, presente em "Peru, às portas de uma nova era", lançado pelo Banco Mundial nesta semana. O estudo diz: o país se orgulha de estar em segundo lugar no ranking que mede a qualidade do ambiente de negócios em 17 países da região, o "Fazendo Negócios". Mas se a medida for o Índice de Oportunidade Humana, que mensura o acesso a serviços sociais, o Peru despenca para o 13º lugar entre os 17.
Há outros fatores no mau humor peruano, como a truculência do governo, em especial para negociar com movimentos sociais, indígenas e ecológicos.
O presidente governou boa parte do tempo usando decretos de urgência e superpoderes legislativos -causando, aliás, muito menos escândalo do que seu colega venezuelano Hugo Chávez.
Ele ganhou a prerrogativa do Congresso para adaptar, por decreto, as leis do país ao TLC (Tratado de Livre Comércio) com os EUA, mas tentou passar de tudo. Num pacotaço, incluiu mudanças na lei de terras e florestal, a chamada "lei da selva", em 2009.
Só recuou depois de um confronto sangrento entre indígenas e policiais em Bágua, ao norte de Lima. Em janeiro, baixou dois decretos de urgência para facilitar investimentos em 33 grandes projetos -incluindo hidrelétricas em parceria com o Brasil.
Entre as facilidades, estava prescindir de um relatório de impacto ambiental. Foi tanto barulho, incluindo nota dos bispos católicos peruanos, que García teve de recuar e a exigência voltou.
De acordo com a Defensoria do Povo (Ouvidoria) peruana, 113 ou metade dos conflitos sociais listados pelo órgão em fevereiro último envolviam questões ambientais.
Se o futuro presidente repetir a fórmula de García para lidar com esses conflitos, não deve ter maior sorte com os índices de popularidade.


Folha de S.Paulo, 03/04/2011. Por FLÁVIA MARREIRO

 
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