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Peru
Na ascensão de um camelô, o salto da classe média latina

Valor Econômico, 16/11/2011

Por Matt Moffett | The Wall Street Journal, de Lima

Aquilino Flores era um menino de 13 anos com um aspecto maltratado quando começou sua carreira como camelô, vendendo camisetas nas favelas desta capital. Hoje em dia sua empresa, a Topitop, é a maior confecção do Peru e tem uma rede de lojas no país inteiro.

Nos últimos dez anos, enquanto o Peru se transformava numa das economias que mais crescem no mundo, pessoas em ascensão social começaram a comprar as camisas polo e calças cargo da Topitop, feitas com tecido de alta qualidade e comercializadas sob marcas de nomes exóticos. Com lojas localizadas estrategicamente em cidades provincianas e bairros pobres há muito ignorados, a receita da Topitop aumentou seis vezes desde 2001, o que lhe rendeu o apelido de "Zara andina"

Enquanto visitava recentemente uma loja gigante da Topitop, David Cáceres, dono de uma pequena oficina mecânica na cidade, comprou um suéter da elegante marca "Nova York" da empresa e uma camiseta decorada com uma estrela da grife "Hawk", mais arrojada. "Ainda vai me sobrar dinheiro para ir ao cinema", disse ele.

A Topitop prosperou vendendo para uma classe média emergente que está provocando mudanças econômicas e sociais vastas na América Latina, região que sempre teve poucos ricos, muitos pobres e relativamente pouca gente entre os dois.

Na última década, cerca de 69 milhões de latino-americanos melhoraram de renda e passaram a ganhar de US$ 5.000 a US$ 8.100 por ano - um grupo que responde agora por 51% da população das maiores economias da região, ante 41% em 2001, segundo um estudo de José Juan Ruiz, um dos principais economistas do Grupo Santander SA, da Espanha.

Embora essa renda ainda esteja abaixo do que é considerado classe média nos Estados Unidos ou na Europa, é uma maneira de definir classe média: o número de indivíduos que ganham entre 45% e 70% da renda per capita.

Um estudo divulgado este ano pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, da Organização das Nações Unidas, concluiu que dezenas de milhões dos habitantes da região entraram para a classe média nos últimos 20 anos. Isso causou "uma notável expansão do mercado consumidor", graças ao crescimento econômico, maior acesso à educação e índices de natalidade mais baixos.

Milhões de latino-americanos - pedreiros, cozinheiros, secretários e microempresários - ganharam uma passagem para a classe consumidora na última década. No centro de Lima, o consumo da classe média transformou uma faixa caótica de 40 lojas no bairro de Gamarra numa potência varejista, com faturamento anual de cerca de US$ 1,5 bilhão, diz o consultor peruano Juan Infante.

A expansão da classe média ocorre em meio ao crescimento econômico robusto na América Latina, que aumentou a renda per capita de US$ 7.600 para US$ 11.900 na última década. O índice regional de pobreza, ou a porcentagem da população que não pode arcar com as necessidades básicas, encolheu de 44% em 2002 para 32% em 2010, segundo a ONU.

A classe média tem sido beneficiada por um forte período de crescimento econômico - alimentado pela alta das commodities exportadas por vários países - junto com programas sociais mais agressivos e um foco em educação.

Mas os avanços ainda são tênues e a possibilidade de uma recessão global ainda assombra os prospectos da classe média emergente.

Nos últimos meses, os preços do minério de ferro brasileiro, do cobre chileno, da soja argentina e de outras matérias-primas caíram com temores de uma recessão mundial. O crescimento na região já está enfraquecendo. Durante a recessão americana de 2008-2009, a contínua demanda chinesa ajudou a amenizar o impacto na América Latina.

Não está claro se a região continuará tendo tanta sorte - e a resposta a essa pergunta pode ter grandes implicações para a redução da histórica desigualdade social latino-americana, que por sua vez é fundamental para o futuro de empresas como a Topitop, que prosperaram enquanto a América Latina reduzia a distância entre seus extremos sociais.

O uruguaio Estevan Daneliuc, um diretor veterano da empresa, lembra que a área ao redor de Lima era uma favela em 1965, quando ele chegou ao país.

"Agora, a área vale muito. As pessoas construíram por conta própria casas de dois ou três andares usando aço e sacos de cimento, sem ajuda do banco ou de ninguém. Eles fazem milagres com nada."

E também compram roupas, muitas delas. A Topitop já vendeu roupas para uma em cada três famílias peruanas, calcula a empresa.

Flores, de 57 anos, diz que sua própria experiência de ascensão da pobreza o ajudou a entender os anseios de clientes que também estão galgando os degraus da economia. A família Flores - cinco irmãos e uma irmã - vem de um criador de animais que morava numa área de pasto cheia de rochas a três quilômetros de altitude em Huancavelica, uma região pobre do Peru.

"Andávamos cinco quilômetros até a escola e tudo que tínhamos para comer era milho tostado e um pouquinho de queijo", diz Manuel Flores, de 59 anos, o irmão mais velho de Aquilino, que divide a presidência da empresa com ele.

Depois de abrir uma fábrica em Lima, os irmãos persistiram apesar dos ataques dos guerrilheiros maoístas do Sendero Luminoso, que explodiam torres de transmissão de energia e deixavam bombas incendiárias em suas lojas. Empreendedores como os Flores "eram as pessoas que eu disse que iam ficar ricas [...] e muitas delas hoje em dia são milionárias", diz o economista peruano Hernando de Soto, especialista em capitalismo entre os pobres.

Agora que a guerrilha maoísta está praticamente fora de ação e o país vive um boom de mineração, o índice de pobreza do Peru caiu de 55% para 31% na última década. O meio dessa faixa - com renda familiar média por mês em torno de US$ 550 - subiu de 28,7% para 33,1% de 2004 para cá, segundo a consultoria Apoyo, de Lima.

A vivência dos irmãos Flores os ajudou a identificar onde se localizavam os novos clientes e que tipo de produtos queriam. A Topitop "quebrou o paradigma", diz Percy Vigil, que dirige o gigantesco shopping MegaPlaza, em Lima. "Durante anos, o trabalhador reclamou 'Por que eles não me dão o mesmo produto que o dos outros consumidores? Também sou um cidadão'". Em 2002, a Topitop foi uma das poucas varejistas dispostas a assumir o risco de alugar espaço no MegaPlaza, que estava sendo construído perto de uma favela no norte da cidade.

Graças ao crescimento da classe média, o MegaPlaza desafiou os céticos e hoje atrai mais de 3 milhões de clientes por mês, ajudando a Topitop a faturar alto. Cerca de metade da receita de US$ 275 da empresa vem de suas mais de 30 lojas no Peru e de algumas filiais na Venezuela. A outra metade vem das exportações para os EUA, Europa e Brasil, onde algumas de suas peças são vendidas com marcas como Old Navy, Hugo Boss e Under Armour Inc.

Consumidores por dentro das tendências da moda apreciam a capacidade da empresa de levar uma coleção da prancheta para as prateleiras em apenas 45 dias. A Topitop produz volumes relativamente pequenos de cada estilo e mantém rotatividade constante. As roupas também são baratas. Uma camiseta de surfe da marca Maui, da Topitop, custa cerca de US$ 10, menos da metade de um importado comparável da Billabong.

"O trabalhador tem tanto interesse em se vestir bem quanto os ricos", diz Flores.

Claro que a onda ascendente de mobilidade social não se restringe ao Peru.

Na Argentina, as famílias entre o 40o e o 60o percentis de renda viram sua fatia do bolo econômico aumentar de 11,8% em 2003 para 14,5% ano passado, segundo a Universidade Nacional de La Plata e o Banco Mundial. Para os argentinos mais pobres, essa fatia cresceu ainda mais, enquanto a dos 10% mais ricos caiu de 41,5% para 32,5%. As mudanças na Argentina foram drásticas em parte porque o país estava se recuperando de um colapso financeiro.

No mais estável Chile, a fatia da renda abocanhada pela classe média passou de 10,9% em 2000 para 11,7% em 2009, conforme mostram os mesmos dados. A fatia dos 10% mais ricos escorregou de 45,3% para 42,7%.

Ainda assim, o abismo entre as aspirações da classe média e seu poder aquisitivo pode causar tensão social. Dezenas de milhares de universitários chilenos, a maioria de classe média e muitos deles o primeiro membro da família a entrar na universidade, realizaram recentemente a maior onda de protestos dos últimos 20 anos no Chile, contra o preço das mensalidades e o endividamento excessivo dos estudantes.

"A classe média tem gostos de rico e salário de pobre", diz a economista argentina Nuria Susmel.

Em alguns países, como o México, ainda se debate até que ponto houve progresso. A classe média mexicana se expandiu, mas não muito, de 29,7% em 2002 para 31,2% hoje, segundo a Associação Mexicana de Agências de Pesquisa de Mercado e Opinião Pública, que calcula um índice baseado na renda e nos bens de consumo das famílias, bem como em outras medidas.

Mas índices não bastam para capturar a efervescência da classe média, argumenta Luis de la Calle, um economista mexicano que recentemente foi coautor de um livro sobre a classe média. Ele vê sinais de um renascimento da classe média no aumento de 40% do consumo de carne do México nos últimos 15 anos, ou de 30% nas matrículas em faculdades nos últimos 8 anos.

Quando intelectuais questionam seu otimismo, de la Calle cita a Wal-Mart Stores Inc. A varejista acredita na classe média do México, diz ele, já que ergueu ou comprou cerca de 2.000 lojas ou restaurantes no país em 20 anos. "Em quem você vai acreditar", diz ele, "num intelectual ou na Wal-Mart?"

 
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