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Colômbia
Crise torna o ouro a nova cocaína na Colômbia

Elizabeth Dickinson, Foreign Policy - O Estado de S.Paulo - 12/08/2011.

Nos três últimos anos de turbulência econômica, os mercados têm-se comportado de maneira previsível em um aspecto: quando as notícias são ruins, os preços do ouro disparam.

Portanto, quando os mercados acionários do mundo todo despencaram na segunda-feira, reagindo à crise da dívida soberana na Europa e ao rebaixamento dos EUA por uma agência de rating, os preços futuros do ouro atingiram nova alta recorde de US$ 1.782,50 a onça, ou um aumento de 4,3% - quase se equiparando à queda do índice das 500 da S&P.

A cerca de 4 mil quilômetros de distância de Nova York, o boom do ouro alimenta um tipo diferente de crise: uma crise de oportunidade. De 2006 a 2010, a Colômbia - a maior produtora de ouro da América Latina desde 1937 - mais que triplicou sua produção para 59 toneladas ao ano. No próximo ano, ela pretende dobrar o volume extraído em 2009, atraindo os investimentos das maiores companhias internacionais como a AngloGold Ashanti e a Cambridge Metal Resources.

As multinacionais não são as únicas a entrar na competição: os rebeldes de esquerda, os cartéis da droga e os criminosos de sempre também se preparam para brigar por uma fatia de um comércio anual de muitos bilhões de dólares. À medida que os preços do ouro subiam sem parar, e o narcotráfico encontrava maiores dificuldades, o ouro se tornou a nova cocaína.

Grupos armados de todo gênero querem uma oportunidade para controlar o mais recente boom da Colômbia. O setor cresceu tão rapidamente que está sendo difícil regulamentar e monitorar as operações. Os candidatos são muitos e o pessoal preparado para exercer sua fiscalização é muito escasso. Frequentemente, as próprias autoridades locais são cooptadas para garantir o lucro. E o que é melhor, o produto - o ouro - não é ilegal; pode ser exportado livremente por empresas de fachada ou por intermediários.

"As minas atraem todo tipo de gente armada", diz Victor Hugo Vidal, um líder local do Processo das Comunidades Negras da Colômbia, uma organização regional que promove a justiça social e monitora o setor de mineração da costa do Pacífico. "O mesmo sujeito que dirige o narcotráfico (na área) provavelmente dirige a mina."

A Colômbia não é o primeiro país cujos grupos armados diversificam suas atividades dedicando-se ao setor de mineração. Na África Central, a terrível guerra civil na República Democrática do Congo foi financiada durante muito tempo pela exportação do cobre, do ouro e de outros metais preciosos. Os diamantes financiaram a guerra civil da Sierra Leoa, e a madeira alimentou durante anos a luta na Libéria.

No caso da Colômbia, uma nação muito mais desenvolvida, que nos últimos anos registrou impressionantes vitórias contra os narcotraficantes, o boom do ouro representa uma nova ameaça à estabilidade do país obtida a um custo muito alto.

Infiltração. O governo colombiano está plenamente consciente do perigo. Em setembro, o presidente Juan Manuel Santos anunciou que guerrilheiros de esquerda estavam infiltrados no setor de mineração. As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o Exército de Libertação Nacional (ELN) usavam a mineração ilegal como "meio para financiar" suas operações, advertiu. E-mails descobertos no computador do comandante militar das Farc, Mono Jojoy, apreendido em janeiro, depois de ele ser morto pelas forças de segurança colombianas em setembro, confirmaram a participação dos rebeldes.

O governo reagiu imediatamente à notícia fechando seu sistema sobrecarregado de concessão de alvarás de exploração em fevereiro. Em maio, o ministro das Minas anunciou o início de uma investigação sobre a corrupção no setor. Em junho, as licenças foram ampliadas até o final de 2012. Santos prometeu trabalhar para a aprovação de uma nova lei nos próximos meses para aprimorar a regulamentação da exploração e da redistribuição dos lucros aos governos locais.

Mas no meio tempo, os contratos existentes - muitos dos quais foram aprovados apressadamente - ainda criam grandes negócios para a exploração lícita e a ilícita. E mesmo sem a documentação oficial, as minas "informais" crescem sem parar. Mas o que mais preocupa é a diversidade dos grupos armados envolvidos - não apenas as Farc e o ELN, mas também a crescente variedade de gangues que começaram a povoar as cidades e as aldeias da Colômbia. Estas organizações mafiosas evoluíram e agora preenchem o vácuo deixado no narcotráfico e em outras atividades ilícitas que surgiram nos últimos anos à medida que os atores tradicionais do conflito, rebeldes e paramilitares foram respectivamente enfraquecidos e desmobilizados.

Na cidade costeira de Buenaventura, um homem que se dedica à mineração artesanal e, até poucos meses atrás, costumava chegar ao local de uma mina informal fora da cidade em 45 minutos, descreveu o caos que viu por lá. Havia tantos grupos armados tentando controlar seus trechos da mina, que "era impossível distinguir quem eles eram", afirmou, com medo de se identificar. Cerca de 250 escavadeiras pertencentes aos diferentes operadores competiam por um pedaço do rio, escavando a céu aberto em qualquer lugar à procura do ouro de aluvião. Nesta situação caótica, organizações civis documentaram cerca de 100 homicídios entre 2009 e 2010.

Alianças. Os sinais das novas atividades são visíveis em toda parte. Monitores destacados para as próximas eleições locais preveem a maior violência nas áreas ricas em recursos, até mesmo nas de mineração do ouro. No dia 25, o International Crises Group enfatizou a advertência, emitindo um relatório que documentava as amplas "alianças entre criminosos e alguns segmentos das elites econômicas locais". Grupos armados, ansiosos por subornar as autoridades locais que possam facilitar o acesso às minas, não hesitam em usar a intimidação ou, pior ainda, em colocar os próprios candidatos nos cargos.

O Alto Comissariado da ONU para Refugiados também ressalta o aumento dos deslocamentos da população ao longo da costa do Pacífico e nas regiões do norte da Colômbia onde a mineração é comum.

Grupos armados (ou às vezes até mesmo empresas legítimas) chegam a expulsar as comunidades de suas terras com uma compensação mínima, quando não à força. Um executivo da empresa canadense Medoro disse à TV Al-Jazira, em um documentário que foi ao ar no início de julho, que mandar as comunidades sair de suas terras era simplesmente uma "questão de dinheiro". (O executivo, Juan Carlos Santos, declarou posteriormente que suas palavras foram "mal interpretadas".)

Os colombianos que habitam as regiões do país ricas em minérios trabalham há anos como mineiros artesanais. Como o homem que conheci em Buenaventura, eles extraem ouro, vendem o que podem, e sobrevivem de um modo ou de outro. "Não há outras opções econômicas", ele afirmou. "É isto ou as gangues de criminosos - e então não se pode dormir à noite." Mas quando os grupos armados entram, as oportunidades de mineração desaparecem. Ele não encontra trabalho há meses.

No entanto, o governo colombiano considera a mineração um setor em expansão. Em 2006, a administração do então presidente Álvaro Uribe anunciou um projeto de reforma para transformar a Colômbia em um "país minerador" até 2019. O documento apresenta planos para tornar a Colômbia ainda mais atraente para os investidores internacionais estabelecendo regulamentações claras no setor e aumentando os incentivos econômicos para a participação externa. Ao mesmo tempo, Santos enfatiza os benefícios que os royalties da atividade mineradora trarão para as comunidades mais pobres.

Meio ambiente. Mas enquanto as instituições do país tentam acompanhar o boom, as normas ambientais estão sendo esquecidas. Mesmo quando as minas têm uma licença de exploração, suas operações podem não seguir o código. "É um desastre ambiental, particularmente para a produção agrícola, para a pureza das fontes hídricas e para toda a população", explica Gustavo Gallón, diretor da Comissão Colombiana de Juristas. "É um negócio assustador - é como se tivéssemos voltado à era colonial."

A boa notícia é que aqui todo mundo parece profundamente consciente de como são desencorajadores e urgentes os problemas da indústria de mineração. Em particular, militares e políticos admitem sua preocupação. O Exército, principalmente, trabalha com as autoridades locais para expulsar os criminosos das operações de mineração, e o procurador-geral acaba de nomear um novo investigador com a função exclusiva de averiguar a mineração ilegal.

Mas, no frenesi generalizado, as boas intenções do governo dificilmente conseguem se traduzir em medidas concretas no campo.

Quando falei a líderes comunitários em Buenaventura, onde reside a maioria dos cidadãos que foram expulsos por causa da competição, todos afirmaram que a corrida ao ouro sempre existiu e os seus participantes sempre foram perigosos.

"Este tipo de mineração tornou-se uma guerra tremendamente feroz", disse Lucmilla Gutiérrez García, uma representante eleita pela comunidade. "A realidade é esta." / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 
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