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Chile
Opositor favorito no Chile evita contrastar com governo

Candidato de coalizão conservadora, empresário mais rico do país e nome mais cotado para assumir a Presidência promete "manter tudo de bom que a Concertação e Bachelet" fizeram

O empresário Sebastián Piñera, opositor favorito na eleição presidencial chilena de 13 de dezembro, interrompeu a agenda da reta final de campanha para ser recebido na última terça pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em Brasília. Piñera, que faz 60 anos amanhã, disse que a reunião foi "frutífera", um encontro entre "amigos". A operação é parte do esforço para demonstrar que o empresário, da coalizão conservadora anti-Michelle Bachelet, tem trânsito com líderes da região, em especial com o "moderado" Lula, que já recebera o governista Eduardo Frei, da coalizão centro-esquerdista Concertação, e o independente Marco Enríquez-Ominami.

Na entrevista que concedeu à Folha, porém, Piñera sinalizou que iniciativas de Brasília como a Unasul (União das Nações Sul-Americanas) ainda tem de provar, com atos concretos, se são úteis para a América do Sul, para poder contar com apoio total de um futuro governo seu. Acossado pela aprovação recorde de Bachelet, em torno de 80%, o empresário promete "manter tudo de bom que a Concertação e Bachelet" fizeram, em especial a "rede de proteção social" -o conjunto de programas sociais e a "contrarreforma" da Previdência de Bachelet, que ampliou a cobertura de idosos e pobres. O empresário mais rico do Chile prometeu ainda vender sua companhia área LAN para poder se dedicar à Presidência. Ele, que também é dono do canal Chilevisión, recentemente transferiu a gerência de parte de seu patrimônio a um fundo. Segundo a CEP, o instituto de pesquisa mais respeitado do Chile, o empresário bate Frei e Ominami, tanto no primeiro como no segundo turno. Analistas dizem, porém, que o alto número de indecisos (14%) e os 6% do esquerdista Jorge Arrate podem complicar o cenário para Piñera.

FOLHA - Por que era importante encontrar-se com Lula, aliado de Bachelet?

SEBASTIÁN PIÑERA - Porque Brasil e Chile tem sido historicamente países aliados e irmãos, e nós queremos, em nosso governo, fortalecer essa relação. O Brasil está exercendo uma grande liderança em nível mundial e queremos colaborar para que essa liderança frutifique e chegue a seus resultados porque assim toda a América Latina vai ter uma presença e uma voz mais forte no concerto internacional. Penso que me reuni com um amigo, com uma pessoa que nos mostrou muito carinho e compreensão. Creio que as relações nos tempos modernos tem de ser em função de projetos de futuro compartilhados, e sem dúvida compartilhamos com Lula uma visão sobre democracia e desenvolvimento econômico. Espero trabalhar, como disse o próprio presidente Lula, um ano inteiro com ele e conseguir avançar nessa agenda comum.

FOLHA - O sr. elogia Lula, mas critica o venezuelano Hugo Chávez. Com o sr. na Presidência, iniciativas como a Unasul, de união política da região, seriam promovidas?

PIÑERA - Os países tem de ser capazes de ter relações ainda que tenha diferentes visões de desenvolvimento. Sem dúvida, tenho diferenças com Chávez, mas vamos buscar as melhores relações com todos os países do mundo. No caso de Unasul, penso que ela tem de demonstrar com fatos e resultados que é uma organização útil e fecunda para os grandes objetivos da América Latina. A Unasul está dando seus primeiros passos e tem de demonstrar que é uma instituição que cumpre com os objetivos para que oi criada. A melhor forma de demonstrar é com feitos.

FOLHA - Como pretende lidar com a tensa relação bilateral com o Peru?

PIÑERA - Com Peru, temos duas agendas: uma do passado, na qual está o diferendo marítimo que está sendo discutido na Corte de Haia. A posição chilena na questão tem uma fortaleza imensa, porque os tratados internacionais, o direito internacionais e a história dos últimos 50 anos a respaldam e a avalizam. Também temos uma agenda de futuro com o Peru, de uma maior integração econômica, física, cultural, projeção conjunta em direção ao mundo Ásia-Pacífico. Estamos preparados para defender no futuro governo os legítimos interesses do Chile.

FOLHA - Peru critica o Chile por estar promovendo uma corrida armamentista. O sr. é a favor de um compromisso de redução de gastos militares?

PIÑERA - Não. Não estamos em corrida armamentista. Só estamos substituindo material que, com o passar do tempo, foi ficando obsoleto. Temos de fazer um grande esforço na região para buscar um esquema mais transparente de homologação dos gastos militares, para permitir dissipar as dúvidas para ter uma relação mais fraterna.

FOLHA - O sr. manterá a agenda de 13 pontos entre Bolívia e Chile, que inclui a discussão de uma saída para o mar para os bolivianos?

PIÑERA - Sou partidário de que o Chile dê todas as facilidades do mundo à Bolívia para que o país faça seu comércio internacional por meio dos portos chilenos. E aí temos que melhorar essas facilidades. Construir as estradas, as linhas férreas que estão incompletas. Mas não sou a favor que Chile entregue nem mar, nem território nem soberania, porque os três nos pertencem legitimamente, estão em tratados internacionais.

FOLHA - Muitos dos elogios que o sr. faz a Lula também são ditos sobre Bachelet. Por que o Chile deve votar no sr.? PIÑERA - A Concertação, que já governa há 20 anos, fez coisas boas, e nós soubemos reconhecer e apoiar, mas perdeu a força, as ideias, o entusiasmo. Está demonstrando vários problemas de "fadiga de material". Perdemos capacidade de crescer, de criar trabalho, não estamos ganhando a batalha contra a delinquência e o narcotráfico. Estou convencido de que a alternância de governo é favorável e positiva. Temos um plano ambicioso, mas factível.

Vamos manter tudo de bom que a Concertação e a presidente Bachelet fizeram, particularmente a rede de proteção social. Mas vamos fazer mudanças muito profundas para que o Chile recupere sua possibilidade de crescer de forma forte e sustentável. Precisamos melhorar o investimento. Temos que melhorar substancialmente a eficiência do Estado e criar uma legislação trabalhista que combine dois objetivos: a geração de novos postos de trabalho e a proteção do direito dos trabalhadores.

FOLHA - O sr. vai abrir capital da estatal do cobre, a Codelco?

PIÑERA - A Codelco vai seguir sendo uma empresa pública, mas precisa de uma profunda modernização. Nos últimos tempos a empresa vem perdendo capacidade de produção, eficiência e está postergando investimentos fundamentais. Vamos buscar os mecanismos para aumentar o capital da Codelco.

FOLHA - Quando o sr. fala de "mecanismos para aumentar capital", fala de abertura acionária?

PIÑERA - Isso tem que avançar em função de um grande acordo nacional em que todas as vozes vão ser escutadas. Para que os avanços sejam sólidos, e não sobre areia, precisamos de um grande acordo nacional.

FOLHA - Bachelet prometeu, mas o fim da lei que obriga o envio de 10% do dinheiro das vendas da Codelco para as Forças Armadas não saiu. O sr. é a favor da revogação?

PIÑERA - Queremos acabar com essa lei, porque isso significa um obstáculo para a Codelco. Queremos substituir isso por um financiamento das Forças Armadas por meio do Orçamento Nacional, de maneira que seja um orçamento estável, com um horizonte de médio prazo para que possam cumprir seu papel: ser uma força dissuasiva, que permita proteger nossos limites, nosso mar e nossa soberania. Não temos nenhuma pretensão expansionista. Nossa estratégia não significa nenhuma ameaça para nenhum país vizinho.

FOLHA -O sr. é dono da companhia aérea LAN e de outras empresas. O tema empresa e Estado é sempre delicado. O que sr. pretende fazer se for eleito?

PIÑERA - Já dei um passo voluntário -porque no Chile não há nenhuma lei que obrigue- e criei um fundo cego, e entreguei a administração de grande parte dos investimentos. Também me comprometi a vender a LAN, para dedicar-me de corpo e alma ao serviço de pública.

FOLHA - Que proposta concreta o sr. tem para atacar a desigualdade?

PIÑERA - Vamos lutar contra a causa da pobreza e da desigualdade. Criar trabalho para todos os chilenos, melhorar a qualidade de capital humano. Enquanto essas políticas surtem efeito, criamos o conceito de Renda Ética Familiar, que é parecida a uma proposta que existe no Brasil, que é dar a todas as famílias chilenas uma bolsa antipobreza que permita às famílias sair da condição de pobreza. Uma das metas do meu governo será derrotar a pobreza extrema durante os próximos quatro anos, e derrotar a pobreza nos próximos oito anos para que em 2018 Chile possa ser um país desenvolvido com renda per capita próxima do que tem Portugal.

FOLHA - Um general reformado disse que o sr. se comprometeu a paralisar os julgamentos por violações de direitos humanos cometidas na ditadura. É verdade?

PIÑERA - Temos de avançar na busca de verdade e justiça. O que eu disse na reunião com os carabineros [polícia chilena] e militares reformados é que, num Estado de Direito, todos os cidadãos têm direito ao devido processo.

FOLHA - Então o sr. não vai agir para paralisar os processos em curso nem os do futuro?

PIÑERA - Não. Porque isso faz bem a alma do país, e isso fortalece a unidade do país. A Justiça tem que seguir avançando, mas também creio que um presidente da República deve olhar para futuro, buscar o reencontro e a reconciliação entre os chilenos. Quando um país fica presa no passado, no fundo, está renunciando a um futuro promissor

Flávia Marreiro
Folha de São Paulo, 30.11.2009

 
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